Esporte/ Lifestyle

Do que eu falo quando eu falo de corrida.

 

Gosto de correr sozinha.

Já tentei correr em dupla, em trio, em bando e simplesmente não consigo. É divertido, engraçado, mas assim: não sinto como se fosse corrida.

Talvez eu seja egoísta, mas correr é um tempo meu. Bem concentrada, só penso naquela reta, em não parar, em ir em frente. Parece contraditório, mas é assim que esvazio minha mente.

Essa é a hora em que tudo acontece.

Ideias surgem, problemas são resolvidos, mágoas são curadas. Elimino suor, energia e bem de vez em quando, algumas lágrimas. Se você não corre por prazer – só pra matar a pizza do fim de semana – talvez nunca chegue a sentir isso.

Um esporte catártico.

Faz sentido pra você? Pra mim nunca fez, até começar a correr. E encontrar Haruki Murakami e seu incrível “Do que eu falo quando eu falo de corrida”.

A primeira frase, no prefácio, é:

Sofrer é opcional.


Murakami começou a correr tarde. Começou a escrever tarde.

Quando digo tarde, digo que ele não sabia exatamente o que faria da vida aos 25 anos, e que somente aos 33 conseguiu, como costumam dizer, “se encontrar na vida”: na escrita e na corrida.

O livro é, como ele deixa claro, um relato pessoal. Sua vida, livros, negócios, fraquezas, frustrações, limitações, de uma forma bastante crua e especial.

Traça paralelos – sem deixar óbvio que está traçando– sobre corrida, escrita e vida.

Em um ponto do livro, ele afirma que a corrida não é um esporte para todos.

Pensei muito sobre isso.

Analisei aquela premissa que diz que é o esporte mais democrático, pois você apenas precisa de um par de tênis e alguma força de vontade. E assim, o cara está certo.

A desconstrução dessa “verdade” sobre a corrida é muito importante, ainda mais hoje em dia, em que a corrida virou “moda”, com tantos tênis escalafobéticos e GPS cheio de frufru. Tudo isso é muito legal, mas o mais legal em si deve ser o esporte, viu?

É óbvio que a corrida não é para todos. Corrida é paixão, e se você vive sentindo dores, não sente prazer e não consegue pensar em um motivo para continuar a correr a não ser “todo mundo faz, tenho obrigação de conseguir também”, simplesmente pare.

De repente a tua praia é outra e você está se castigando por uma vaidade boba.

Invista seu tempo e energia no que te faz feliz de verdade: isso vale pra vida.

A desconstrução dessa “verdade” sobre a corrida fez com que eu amasse o livro. Mas não só por isso. Ele é particularmente interessante pra você, que gosta de corrida, gosta de escrever, está meio sem saber o que fazer da vida ou precisa de uma injeção de foco.

Apesar de direto, o livro possui sutilezas que o leitor mais atento percebe. E embora passe longe de ser um livro de auto ajuda, o autor lança e acerta em cheio, sem ser piegas: é daqueles que encostam o dedo na ferida – desde que você embarque na viagem.

As descrições de sensações e estágios alcançados pelo autor são tão completas, que mesmo longe de correr uma maratona ou praticar triatlo, me senti próxima dele. Engraçado.

Elogiei tanto esse livro que uma amiga me perguntou: “Manu, me desculpa, mas o que esse livro tem de tão foda?”

Nessa hora tive um momento #meme do tipo “não sei o que dizer, apenas sentir”. Porque tem a ver com o momento de cada um, né? De repente é uma leitura que não vai te pegar tanto quanto me pegou.

E pra tentar explicar, deixo vocês com o que considero um dos melhores trechos desse livrinho genial:

“O que quero dizer é: não comecei a correr porque alguém me pediu para me tornar um corredor. Assim como não me tornei um romancista porque alguém me pediu para ser um. Certo dia, do nada, quis escrever um romance. E um dia, do nada, comecei a correr – simplesmente porque eu quis. Sempre fiz o que tive vontade de fazer na vida. As pessoas talvez tentem me deter, e me convencer de que estou errado, mas não vou mudar.”

Essas escolhas são tão singulares que não envolvem mais ninguém, exceto quem corre. Quero dizer, quem escolhe.

Murakami é especial porque quando ele fala de corrida, ele fala de vida. <3

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2 Comentários

  • Reply
    Raquel Arellano
    04/02/2015 at 12:27 am

    Esse autor me ganhou quando li “Minha Querida Sputnik”. Percebi em algumas passagens que ele coloca sobre a mesa pontos que costumamos esconder. Angústias e frustrações que nos acompanham por tanto tempo, enquanto tentamos nos encaixar em algum modelo de sucesso. Ser-alguma-coisa. Mesmo que esse alguma coisa não seja o que você realmente quer ser. O que você realmente é.

    Hoje, curiosamente, busquei esse livro na Cultura. Tava precisando de uma leitura que me fizesse pensar sobre as coisas de um jeito mais “vem cá, deixa eu te falar uma parada…”. PS: esse foi um dos posts que mais gostei de ler aqui no blog. Volte mais vezes com essas questões, viu? <3

    • Reply
      Manu Alves
      04/02/2015 at 8:11 pm

      Raquel,
      E é por esses e por outros que Murakami é um dos meus autores favoritos. <3

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