Gastronomia/ Reflexões

Sobre todas as coisas que comida não é (ou não deveria ser).

Comida não é recompensa. Comida não é castigo. Comida não é prêmio. Comida não é desespero.  Comida não é plástico.

Plástico não deveria ter o direito de se chamar “comida”.

Comida não é só caloria. Comida não é sofrimento. Comida não é martírio…

…comer não é se entupir até não aguentar mais e depois colocar tudo pra fora. Sua baixa auto estima, sua falta de pertencimento a algum grupo social, seu sentimento de rejeição. Eles não devem ser comidos, mas também não podem te fazer passar fome. Se isso acontecer, procure ajuda.

Comida não é culpa. Sua culpa, ansiedade, sofrimento: nada disso deve ser comido. Nem sob a forma de chocolate, pizza ou o porre homérico do fim de semana.

Comida não é dor, comer não significa se empanturrar de porcaria enquanto futuca a rede social do(a) ex, desafetos ou gente de quem você sente inveja. Isso não é comer: isso é sofrer. Sair pra correr terá um efeito mais positivo sobre tudo o que você está sentido.

Se nutra de alimentos verdadeiros, mas também de paz de espírito.

Cuide de colocar pra dentro aquilo que te faz bem: pro corpo, mente e coração. Antes de comer, olhe pro alimento – sagrado – que está na sua frente. Imagine que aquilo vai ser o responsável por te manter forte durante o dia: pra trabalhar, estudar, malhar, enfim: viver.


Decidi escrever esse texto depois de observar o comportamento do ser humano. Sempre ele, gente.

Estava em uma loja de produtos naturais e perguntei pela barra de chocolates Amma 100% cacau (que eu adoro). Uma cliente, ao meu lado, sem me conhecer, sem conhecer a marca, tentou me indicar a marca que ela estava levando – e que dizia, em letras garrafais, #glutenfree na embalagem.

Educadamente, peguei a embalagem pelo verso e a lista de ingredientes começava com… açúcar. Amiga, se é com glúten ou sem glúten, isso é o último dos seus problemas. A quem interessar possa: o chocolate da Amma é livre de glúten.

Como eu não estava num bom dia, perguntei se ela era celíaca. “Não, mas minha nutricionista me mandou tirar todo o glúten”. Ôxe. O anjo da guarda de plantão me fez responder um “Ah, que ótimo” e sair da loja sem meu chocolate.

O que há com as pessoas? Será que a gente desaprendeu o verdadeiro sentido do que é comer?

Toda essa polícia que monta um prato baseado em calorias vazias de pacotinhos e caixinhas e considera OK porque é tudo #glutenfree não te ensina a comer. Te ensina a se enganar, com base em uma suposta nutrição de massa que teima em demonizar alimentos, sem valorizar a particularidade de cada indivíduo.

Comer é um ato sublime, e deve ser para cada um de nós. Alimentar-se, nutrir-se. A maioria dos grandes atos comemorativos gira em torno – ou é acompanhada por grandes quantidades de comida. Natal. Páscoa. Yom Kippur. Aniversários. Casamentos. Comida é celebração, é amor, é vida.

É triste ver a quantidade de pessoas que se esquece de que comer é sagrado.

E por falar em sagrado, vamos falar de pão?

Um dos alimentos mais primitivos. É bíblico, é simbólico, é lindo. Grãos moídos, misturados com água e secos ao sol. A Humanidade está de parabéns: produziu o que viria a ser a base de nossa alimentação por muitos e muitos anos.

Por toda essa carga histórica, acredito ser pequeno demais reduzir o pão ao “demônho” do glúten. É um alimento, mas não só. É comida, é energia. E que energia ele carrega…

avocado toast torrada abacate cozinho logo existo 3

Esqueça o pão da padaria da esquina. Olhe para o pão que você idealizou, comprou os ingredientes, mediu e sovou. Esperou as leveduras agirem, viu o fermento fazer tudo crescer. Amassou com carinho. Assou, vigiando de 5 em 5 minutos pela janelinha do forno. Lembre do cheiro do pão invadindo a casa. Lembre da felicidade ao tirar o pão dourado, crocante, quente do forno.

Se felicidade tem cheiro, é cheiro de pão assando.

O lance da energia é esse: a energia é de quem faz. Escolher os ingredientes com cuidado – e não no piloto automático da receita – faz com que a gente ponha um pouco de si naquilo. Muito prazer, sou uma pessoa completamente apaixonada por pães. Grandes, crocantes, de fermentação longa e da casca dourada.

Mas prestar atenção no que nos faz mal também pode fazer toda a diferença.

Volta pra realidade. Pão, da forma que eu mais amo, me faz muito mal. Sou intolerante a fungos e leveduras. Isso significa que comer pão todos os dias vai me deixar inchada – e se eu exagerar, podem até dificultar a absorção de alguns nutrientes pelo meu corpo e resultar em uma saúde debilitada a médio prazo.

Isso poderia parecer um dilema. Mas não é. A partir do momento em que tomei consciência disso, entendi que se eu quisesse ter uma vida mais saudável, pães fermentados não poderiam mais ser a minha regra: eles se tornaram a minha exceção.

Excluir o que eu considero o melhor alimento da face da Terra do meu prato diariamente me fez valorizar quando encontro um pão bom de verdade pela frente. E me fez querer aprender a fazer pão bom de verdade. Pra poder cometer o “meu pecadilho” em alto estilo. Vocês me entendem?

E de vez em quando, eu como sim: mas eu quero comer o MEU pão. Um pão sem melhoradores, com ingredientes de qualidade, sem fermentação mal feita. Um pão sem pressa, um pão com a minha sova. A minha energia. Com o glúten bem desenvolvido – não necessariamente com farinha de trigo, mas gostoso de verdade.

E eu como feliz. Aliás, amo comer bem. Comer bem é uma felicidade, né?.

Faça escolhas saudáveis e conscientes sim, mas sabendo do que você gosta, conhecendo sabores, se permitindo explorar a seção de temperos do mercado – sem vergonha de errar, com toda a glória quando acertar. Comer é primitivo, é fisiológico, é bom demais pra ser resumido a pacotinhos de plástico.

Quero ver todo mundo fazendo o próprio jantar hoje, hein?

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5 Comentários

  • Reply
    Nanda Manzo
    21/09/2015 at 7:12 pm

    Texto maravilhoso!!
    Até imaginei um comercial de pão caseiro assim!!

    Nunca comentei aqui, mas sempre acompanho as postagens e tento fazer algumas receitinhas, seja para mim, seja para alguém próximo (no geral meu namorado, cobaia preferida, hahaha).
    Concordo totalmente com tua visão de que comer é um ato sagrado, que deve ser bem pensado e medido, ao invés de servir para “curar” deprê, ansiedade e tédio. É o tal do “remédio” que acaba por fazer mais mal do que bem.
    Com essa moda fitness, a maioria das pessoas só quer saber de emagrecer, não necessariamente ter uma vida saudável.
    Fica aqui registrada minha admiração pelo teu empenho em fazer tudo com o maior amor, cuidado, carinho e atenção; por realmente pensar no que está comendo e na forma em que aquele alimento vai te beneficiar. É inspirador, de verdade!
    Espero que continue a inspirar de forma positiva todos aqueles que chegam a ti de alguma forma. Parabéns pelo texto lindo, verdadeiro e pelas receitinhas delícia! (Pãozinho de chia se tornou meu fiel companheiro de cafés! <3 )

    • Reply
      Manu
      22/09/2015 at 6:02 pm

      Nanda,
      <3 <3 <3 procê.

  • Reply
    Mizoca
    01/10/2015 at 6:10 pm

    Texto maravilhoso, verdadeiro e inspirador!
    Só tenho a agradecer!
    Fico feliz por encontrar pessoas lindas como você compartilhando amor e consciência!

  • Reply
    Carolina de Oliveira Pontes
    28/02/2017 at 6:00 pm

    Nossa, Manu, você escreveu muito do que penso! Amei o texto. Nunca consumi adoçante e sempre achei que algo tão processado, tão artificial, não era lá aquela maravilha que prometiam – como o aspartame, por exemplo – e eu sempre disse, meio que brincando, mas a sério, que adoçante é contra a minha religião, a religião do BSS (Bom= saboroso+saudável). Com direito a uns deslizes junkie. Hahah. Acontece que hoje mesmo li sobre alimentos/substâncias nocivas à saúde e, advinhe, o aspartame está entre eles.
    Acho seu blog a coisa mais linda. Sigo você no facebook, no instagram, no pinterest, seu blog está nos meus favoritos. Quase uma stalker! Mas uma stalker do amor, pode ter certeza!
    Abraço.
    Carolina.

    • Reply
      Manu
      05/03/2017 at 10:39 pm

      Oi Carol!
      Que delícia ler um comentário desses e saber que tem mais gente que pensa assim… =)
      bj grande!

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